O Festival de Dança de Londrina manifesta-se a respeito da polêmica envolvendo a performance “DNA de DAN”, do artista Maikon K, na programação de sua 15ª edição. No sábado (14), pouco antes do fim da apresentação, que durou quase quatro horas, a PM compareceu ao Palco do Lago Igapó para encaminhar o artista e a coordenadora do Festival à delegacia em razão de uma denúncia por “ato obsceno”. A organização do Festival de Dança de Londrina e o público presente, próximo de uma centena de pessoas, mobilizaram-se contra a retirada de ambos. A abordagem dos policiais militares foi amistosa e respeitosa e, a pedido do Festival, concordaram em levar para prestar esclarecimento os coordenadores do evento. Maikon K foi retirado do local pelo próprio público em mutirão, num ato simbólico em defesa à liberdade de expressão nas artes. O Festival esclarece que todos os cuidados para a preservação do artista e do público foram tomados: o evento portava as liberações para utilização do espaço; a apresentação enquadrava-se nas diretrizes da Lei do Artista de Rua; a produção ficou disposta em ambos os lados da via pública, a uma distância aproximada de 15 metros, para informar os passantes, sobretudo famílias, sobre o conteúdo da apresentação, oferecendo a possibilidade de tomarem um desvio; seguranças foram contratados para impedir que pessoas sem autorização subissem no palco; observou-se rigorosamente a classificação indicativa (acima de 16 anos) para os que manifestaram interesse em adentrar o espaço no momento da dança-instalação (que acontece na última hora da performance). Ademais, o evento reforça que Maikon K permanecia o tempo todo dentro de uma bolha translúcida, com o corpo recoberto por uma “segunda pele”, um espesso gel – o que lembrava a imagem distante de um boneco. O conteúdo artístico e as profundas significações envolvidas em “DNA de DAN” colocam a nudez num plano completamente secundário. Tanto a fixidez do artista ao longo de mais de três horas, quanto os movimentos de sua dança-ritual tornam absurdas qualquer suposição de “ato obsceno” ou de “violento atentado ao pudor”. Há diferenças abissais. O potencial ofensivo de um artista nu em construção simbólica na arte é o mesmo de uma mãe que amamenta o seu filho em local público. Nenhum. Para ambos, a nudez naquele momento é necessária e direita. Estes nunca foram nem princípios, nem meios e nem fins do gesto artístico em questão e nem da curadoria do Festival, mais preocupados com questões urgentes do nosso tempo-espaço. Por último, bem cabe uma frase estampada na contracapa de nosso catálogo: “Escrever em água-forte, à tinta, a giz, com sangue, em todos os lugares reais e virtuais deste mundo: 2017 (…). Para que saibamos que a arte deste tempo revela mais sobre quem vê do que sobre quem faz”.

Foto – Fábio Alcover
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